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Horikawa Dojo · Cascavel

Guia do
tatame

Tudo o que se combina antes de pisar no tatame: como funciona uma aula, o que se espera de quem chega, como se cuida do parceiro e o que significa cada faixa. Ler leva uns quinze minutos e poupa meses de dúvida.

01

Sobre o jiu-jitsu

De onde vem a luta que se treina aqui.

O jiu-jitsu tem raízes nas artes de agarramento do Japão. No fim do século XIX, Jigoro Kano organizou e sistematizou as técnicas de projeção e de luta no chão, criando o judô no Kodokan como método moderno de educação física, disciplina e combate.

No início do século XX, mestres do judô viajaram pelo mundo demonstrando e ensinando esse jiu-jitsu do Kodokan. Um dos mais conhecidos foi Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, que participou dessa expansão e chegou ao Brasil em 1914.

Nesse contexto, jovens brasileiros começaram a treinar e a adaptar o que aprendiam às necessidades locais. Entre eles, Carlos Gracie teve contato com o ensino em Belém e, mais tarde, no Rio de Janeiro, ajudou a difundir o treino.

Com o tempo, o jiu-jitsu brasileiro consolidou um foco forte em controle, alavancas e estrangulamentos, e passou a se desenvolver em duas frentes que se complementam: defesa pessoal e esporte.

Linha do tempo

Criação do judô Kodokan, no Japão1882
Maeda chega ao Brasil e inicia sua fase mais conhecida no país1914
Expansão das academias e consolidação do jiu-jitsu brasileiro1930+
Criação da CBJJ, que organiza e regulamenta o esporte no Brasil1994
Criação da IBJJF, responsável por eventos e rankings internacionais2002

A história se respeita e se usa o que ela tem de melhor: treino consistente, disciplina, segurança e evolução técnica.

Gi e No-Gi, o que muda

Gi, com kimono. Treino e luta com blusão, calça e faixa. As pegadas no tecido fazem parte do jogo e o ritmo costuma ser mais cadenciado.

No-Gi, sem kimono. Treino e luta com rashguard e short ou spats. O jogo usa mais pegadas no corpo e tende a ser mais rápido.

Em resumo: no gi, controle e pegada no kimono. No no-gi, controle no corpo e transições mais rápidas. Os dois se complementam.

02

Boas-vindas

Como funciona aqui, do primeiro contato ao primeiro rola.

Você não precisa já saber nada para começar.

O compromisso do dojo é oferecer um ambiente organizado para aprender. O compromisso de quem chega é treinar com constância e cuidar do próprio corpo e dos parceiros.

Como é uma aula típica

Aquecimento e mobilidade5 a 15 min
Técnica do dia15 a 30 min
Drills, repetição guiada10 a 20 min
Rola, treino livre10 a 30 min
Alongamento e avisosopcional

Quem chega no meio da aula entra com discrição e espera um momento para se integrar.

O que fazer no primeiro dia

  • Chegar dez minutos antes, se possível
  • Falar com o professor e avisar sobre lesão ou condição médica
  • Tirar acessórios: anéis, colares, brincos, relógio
  • Unhas curtas e higiene em dia
  • Perguntar sem medo, porque ninguém nasce sabendo

Regras de convivência

  • Respeito sempre, com colegas, professores, visitantes e equipe
  • Sem ego. O objetivo é aprender, não ganhar o treino
  • Treino é parceria. Cuida-se do parceiro como se quer ser cuidado
  • Ambiente seguro. Se algo está estranho ou dolorido, comunique

Não é permitido

  • Discussão agressiva, humilhação, bullying ou discriminação
  • Punição no rola, no sentido de aumentar a força para dar lição

Como pedir para rolar, e como recusar

Para convidar: contato visual e um gesto com a mão. Um "vamos rolar?" basta.

Para recusar: "vou descansar uma", "estou com dor", "vou beber água", "vou observar".

Recusar é sempre aceitável.

Segurança no rola

  • Bateu, parou. O tap encerra a ação na hora
  • Dor estranha significa parar e avisar
  • Sem puxão brusco em dedos, cabeça e pescoço
  • Queda só com espaço. Se o tatame estiver cheio, prefira rola de joelhos
  • Atenção à borda. Se sair do espaço, pare e volte ao centro

Como dar o tap: bater com a mão no adversário ou no tatame três vezes, ou falar "bateu" se as mãos estiverem presas.

Turmas mistas

  • Quem tem mais experiência ajuda a controlar o ritmo
  • Diferença grande de peso ou força pede técnica e controle, não intensidade
  • Quem é novo prefere rolar com faixas de confiança e com orientação do professor

Glossário mínimo

RolarTreino livre, sparring
TapSinal de desistência por segurança
DrillRepetição guiada de um movimento
PassagemSuperar as pernas e controlar por cima
GuardaPosição com as pernas entre você e o adversário
03

Etiqueta do tatame

O que mantém o tatame organizado, respeitoso e seguro.

Antes de pisar no tatame

  • Chinelo sempre fora do tatame. Não se pisa no tatame com chinelo ou sapato
  • Chinelo organizado, virado para fora, na posição de saída
  • Para sair, banheiro ou água, calça o chinelo e volta do mesmo jeito
  • Sem comida no tatame. Garrafa de água pode

Entrada e saída

  • Ao entrar no tatame, cumprimente o professor
  • Se o professor estiver ensinando, não interrompa. Espere um momento
  • Ao sair, cumprimente o professor e os colegas
  • Cumprimente na ordem, do mais graduado para o menos graduado
  • Entre com discrição, sem atravessar o centro do tatame

Atenção e espaço

  • Quando o professor demonstra, para-se e presta atenção
  • Sem conversa paralela. Dúvida é bem-vinda, no momento certo
  • Respeite o espaço dos outros rolas e mantenha distância
  • Se um rola vier na sua direção, pare e dê espaço
  • Transite sempre pela borda do tatame, nunca pelo centro

Convite e postura

  • Convide com educação e aceite um não sem questionar
  • Ao rolar com alguém mais leve ou mais novo, controle a intensidade
  • Sem maldade. Não é lugar de provar força
  • Se aconteceu algo, dedo preso ou cabeçada, pare e verifique

Sangramento e higiene

  • Qualquer sangramento: pare na hora, avise o professor e saia do tatame
  • Volte só quando estiver estancado e protegido, com curativo ou fita
  • Kimono rasgado ou sujo de sangue se troca antes de continuar

Celular e hierarquia

  • Celular no tatame só quando autorizado, por exemplo para filmar uma técnica
  • Não se filma terceiros sem consentimento
  • Respeite os mais graduados, lembrando que todos são parceiros de treino

Resumo: chinelo fora do tatame, silêncio na explicação, rola com controle. Qualquer risco ou questão de higiene: pare e avise.

04

Uniforme e higiene

Saúde do time, prevenção de lesão e padrão de apresentação.

Regra número um: uniforme limpo

  • Kimono e faixa lavados, idealmente a cada treino
  • Não se treina com kimono guardado úmido. Cheiro significa bactéria ou fungo
  • Rashguard por baixo também precisa estar limpo

Quem treina mais de três vezes por semana precisa de pelo menos dois kimonos.

Higiene pessoal

  • Unhas curtas, mãos e pés
  • Cabelo comprido preso e bem fixo
  • Sem acessórios: anel, corrente, brinco, relógio, piercing exposto
  • Sem ferida exposta. Corte precisa estar limpo e coberto
  • Suspeita de micose ou infecção de pele: avise o professor e não treine até tratar

No gi, com kimono

Permitido: kimono branco, azul ou preto, que é o padrão, sendo outras cores a critério do professor. Faixa da graduação. Rashguard por baixo é recomendado.

Evite

  • Kimono com rasgo grande, costura solta ou parte áspera
  • Kimono com cheiro forte ou visivelmente sujo

No no-gi, sem kimono

  • Rashguard de manga curta ou longa
  • Short sem bolso e sem zíper, ou com bolso costurado e fechado
  • Spats ou calça térmica, desde que sem zíper ou parte rígida

Padrão de competição, CBJJ e IBJJF

  • Kimono em boas condições, sem rasgo e sem desgaste excessivo
  • Medidas e caimento dentro do padrão, na manga e na calça
  • Faixa correta e bem amarrada
  • Sem itens proibidos: bolso, zíper, peça rígida

Quem vai competir avisa com antecedência para que o uniforme seja conferido antes.

Na mochila

Kimono e faixaO básico
Rashguard extraPara o no-gi ou para trocar
Garrafa de águaPode ficar na borda
ChineloPara circular fora do tatame
Toalha pequenaHigiene básica
Curativo e fitaPara cortes pequenos
Protetor bucalRecomendado

Higiene não é frescura. É saúde e respeito com o parceiro.

05

Faixas e graus

Hierarquia clara, sem mistério e sem exagero.

Ordem das faixas, a partir dos 16 anos

Branca
Azul
Roxa
Marrom
Preta

Faixas infantis, de 4 a 15 anos

Branca
Cinza
Amarela
Laranja
Verde

Cada cor tem três variações, na sequência: com branco, lisa, e com preto. O grupo cinza vai dos 4 aos 15 anos, o amarelo dos 7 aos 15, o laranja dos 10 aos 15 e o verde dos 13 aos 15.

Aos 16 anos acontece a transição para o sistema adulto. Cinza, amarela e laranja passam para azul. Verde passa para azul ou roxa, conforme decisão do professor.

Idades mínimas, CBJJ e IBJJF

Brancaqualquer idade
Azul16 anos
Roxa16 anos
Marrom18 anos
Preta18 anos

Tempo mínimo em cada faixa

Branca para azulsem tempo mínimo
Azul para roxa2 anos
Roxa para marrom1 ano e meio
Marrom para preta1 ano

Esses tempos são a regra oficial da CBJJ e da IBJJF. Confirmar se o dojo segue exatamente esse critério.

Graus

  • Branca, azul, roxa e marrom: faixa lisa mais até quatro graus
  • Preta: faixa lisa mais até seis graus
  • Vermelha e preta: sétimo grau
  • Vermelha e branca: oitavo grau
  • Vermelha: nono e décimo graus

Como se chama quem ensina

Os títulos não são elogio, são posto, e trocá-los pega mal com quem é da área.

  • Professor ou sensei. São equivalentes. Sensei é a palavra japonesa, usada por quem vem das artes orientais, e é a que se usa aqui. Vale para qualquer faixa preta que conduz aula.
  • Mestre. Reservado a quem chegou à faixa coral, vermelha e preta, o que costuma significar cerca de trinta anos de faixa preta. Faixa preta com graus continua sendo professor ou sensei, não mestre.
  • Grão-mestre. Faixa vermelha, o topo da graduação.

Aqui se trata por sensei. Graduação é consequência de constância, postura e evolução técnica. Não é corrida.

06

Regras essenciais

O que importa para treinar bem e competir sem surpresa.

No treino

  • Tap é lei. Bateu ou falou, todo mundo para na hora
  • Parou, reseta. Depois do tap, solte com calma e pergunte se está tudo bem
  • Ritmo combinado. Se o parceiro pedir mais leve, é mais leve
  • Sem discussão no rola. Dúvida vira pergunta ao professor
  • Queda com responsabilidade. A prioridade é segurança e espaço

Pontuação, referência CBJJ e IBJJF

Queda2 pontos
Raspagem2 pontos
Joelho na barriga2 pontos
Passagem de guarda3 pontos
Montada4 pontos
Pegada nas costas4 pontos

O que faz a pontuação valer

Para pontuar é preciso chegar na posição e estabilizar o controle por cerca de três segundos.

  • Queda: derrubar de pé e terminar por cima, com controle
  • Raspagem: começar por baixo e inverter para ficar por cima
  • Passagem: tirar as pernas e controlar por cima por cerca de três segundos
  • Costas: controle com dois ganchos ou com triângulo de corpo

Vantagem

Vantagem é um quase ponto ou uma quase finalização.

  • Quase raspou, mas o adversário escapou no limite
  • Quase passou, mas o adversário recompôs
  • Ataque de finalização muito encaixado, mas defendido

Em caso de empate em pontos, as vantagens podem decidir.

Punições

  • Falta de combatividade, enrolar ou travar o jogo
  • Sair da área para evitar uma posição
  • Pegadas ou ações ilegais
Primeira puniçãovantagem ao oponente
Segunda2 pontos
Terceiramais 2 pontos
Quartadesclassificação

Para competir

  • Saiba sua categoria: idade, peso e faixa
  • Chegue cedo, para credenciamento, aquecimento e para achar sua área
  • Unhas e uniforme em dia, para não barrar na inspeção
  • Plano simples: uma queda ou puxada, uma passagem ou raspagem, e controle

Quem vai competir avisa. O dojo ajuda com estratégia, regras e checagem de uniforme.

07

Golpes proibidos e restritos

Segurança por faixa e por idade, no padrão CBJJ e IBJJF.

Princípios

  • Segurança acima de tudo. Quem não controla o golpe não aplica o golpe
  • Treino não é campeonato. Mesmo o golpe permitido se faz com controle
  • Tap precoce é inteligência. Bateu, soltou, resetou

Sempre proibidos

  • Bate-estaca, principalmente para escapar de finalização
  • Queda tesoura, o kani basami
  • Suplex que derrube o adversário de cabeça ou de pescoço
  • Chave ou estrangulamento que force a cervical, e chave de coluna
  • Torcer dedos para trás, da mão ou do pé
  • Pressionar a garganta com a mão, e tampar boca ou nariz
  • Qualquer finalização que torça o joelho de forma perigosa

Restrições por faixa

Faixa branca

  • Permitido: estrangulamento e chave de braço ou ombro com controle, e chave de pé reta
  • Não permitido: torção de joelho, cruzada de perna, chave de calcanhar e chave de panturrilha
  • Pular para a guarda fechada é falta em competição

Faixas azul e roxa

  • Sem reaping, sem heel hook, sem chave de joelho e sem slicer
  • Chave de punho apenas com orientação e controle

Faixas marrom e preta

  • Maior liberdade de finalizações
  • Reaping e heel hook continuam sendo ponto de atenção

No no-gi, o que muda

  • Heel hook: permitida apenas no adulto, para marrom e preta
  • Reaping: restrita, liberada apenas em contextos específicos

Heel hook e reaping só são treinados em aulas específicas e com autorização do professor.

Na dúvida: não aplica, pergunta, e aprende na aula certa.

08

Caminho do aluno

Rotina, evolução e competição.

O que se valoriza

ConsistênciaTreinar toda semana
PosturaRespeito, humildade e parceria
SegurançaControle acima de força
FundamentoPosição antes de finalização

Roteiro por fases

01

Primeiros 30 dias · sobrevivência inteligente

  • Aprender base, queda segura, postura na guarda e como dar o tap
  • Foco em defender, respirar e manter a calma, sem explodir
  • Meta: dois a três treinos por semana
02

De 1 a 3 meses · construir fundamentos

  • Construir uma guarda, uma passagem, uma raspagem e uma saída de posição ruim
  • Entender a pontuação básica
  • Meta: três treinos por semana
03

De 3 a 6 meses · jogo com intenção

  • Ter um plano simples: entrada, posição, finalização
  • Repetir sequências e registrar as dúvidas
  • Meta: três a quatro treinos por semana
04

De 6 meses em diante · lapidar e expandir

  • Ajustar detalhe, tempo, pegada e transição
  • Incluir variações, sem abandonar o básico
  • Aprender a treinar forte sem se machucar

Como estudar jiu-jitsu

  • Regra 80/20: foco no que aparece sempre, ou seja guarda, passagem, raspagem, controle e escapes
  • Perguntas boas: onde fica minha mão, qual é o erro mais comum
  • Anotar três coisas por aula: uma técnica, um detalhe e uma dúvida

Frequência e expectativa

Manutenção e aprendizado gradual2x por semana
Evolução constante3x por semana
Evolução rápida, exige sono e alimentação em dia4x ou mais

Lesão e prevenção

  • Se doeu errado, pare. Não se empurra treino machucado
  • Prioridade para aquecimento, mobilidade e recuperação
  • Tap cedo em chave de braço, de ombro e de pescoço
  • Durar no jiu-jitsu é treino inteligente somado a constância

Competição, que é opcional

Para quem quer competir:

  • De quatro a seis semanas antes: foco em fundamentos e cardio leve
  • De duas a três semanas antes: rolas mais específicos, por situação
  • Semana da luta: manter o ritmo, dormir bem, sem inventar
  • Plano de jogo: entrada, meio com raspagem ou passagem, controle e ataque

Para quem não quer competir: tudo certo. A evolução se mede por metas internas, de técnica, condicionamento e defesa.

Graduação

Faixa não é corrida. É consequência de frequência, postura, compreensão dos fundamentos e capacidade de treinar com segurança.

Compare você com você. Com quem você era há três meses.